segunda-feira, 15 de abril de 2013

Por que morreu o Futebol Moleque



             Muitos anos atrás, mais especificamente durante as primeiras décadas do século XX, um renomado psicólogo americano chamado Lewis Terman deu início a uma empreitada extraordinária para provar, como ansiavam as principais correntes cientificistas da época, que os altos índices de QI verificados na infância estavam inexoravelmente atrelados ao sucesso intelectual e profissional das pessoas na fase adulta. Sua pesquisa estava pautada na ideia de que crianças bem sucedidas possuíam genes de elite, que as conduziriam pelo sucesso por toda a vida.

            Para realizar esse trabalho, Terman e sua equipe passaram a acompanhar uma amostragem de 1500 crianças californianas classificadas como “excepcionalmente superiores”. Com o passar dos anos, no entanto, os superdotados de Terman não corresponderam como esperado e tiveram, maior parte das vezes, carreiras apenas satisfatórias. No lado oposto, entre os “rejeitados de Terman” (crianças que foram avaliadas e tiveram desempenho considerado insuficiente), dois vencedores do Prêmio Nobel de Física: William Shockley, em 1956 e Luis Walter Alvarez em 1968, como conta o livro O Gênio em Todos Nós, de David Shenk. Afinal de contas, o sucesso sempre esteve mais ligado ao esforço e à dedicação do que qualquer capacidade inata.

            Você que me lê deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o chamado futebol-arte, ou o aclamado futebol moleque, invenção e patente brasileiras. Tal e qual as crianças estudadas por Lewis Terman, o futebol cresceu, amadureceu e teve que encarar a dura realidade do mundo competitivo. Sim, se no passado o futebol gostava de calçar chinelos e podia acontecer em qualquer lugar ou qualquer esquina, hoje ele tem lugar e hora específicos para acontecer, e um aparato tecnológico inimaginável até a década de 1980.

            Até especialmente o final dos anos 70 e início dos anos 80, o Brasil se mostrou uma aparentemente inesgotável fábrica de craques, jogadores geniais que saíam de onde menos se poderia imaginar e ganhavam o mundo com seu talento e habilidade. Não há como discutir que Pelé, Tostão, Garrincha, Gérson, Zico, Sócrates e Falcão, pra citar só alguns, eram superdotados no assunto bola. Mas mesmo nos times pequenos e eventualmente até no futebol amador surgiam equipes e figuras míticas dos gramados. 

Exemplos disso não faltam: Podemos citar, por exemplo, o time do Uberaba Esporte Clube que, pelas oitavas de final do Campeonato Brasileiro de 1981, empatou em casa e chegou a estar vencendo o segundo jogo contra a Flamengo em pleno Maracanã por 2 x 0 até levar a virada e perder por 4 x 2 do time de Zico, Junior e cia. Outro dia assisti também a uma matéria no Esporte Espetacular que contava como o Botafogo de Garrincha, Didi e Nilton Santos, base da seleção campeã mundial na Suécia em 1958, empatara com o modesto Carlos Renaux, time da pacata cidade de Brusque, no interior de Santa Catarina, pelo belíssimo placar de 5 x 5.

O brasileiro aprendeu a acreditar que aqui, pelo menos, o futebol é genético. Tudo o que se precisa fazer para ganhar uma copa do mundo é esperar a próxima safra de craques, o próximo comboio de garotos prodígio do nosso superdotado futebol. Eventualmente eles até apareceram: Romário em seu tempo, Ronaldo e Rivaldo em seguida e alguns outros lampejos, como Ronaldinho Gaúcho.

Enquanto isso, no resto do mundo, o futebol menos brilhante, sem genes superiores, foi ao trabalho: incessantes estudos sobre o melhor formato de preparação física dos atletas, os modelos mais bem sucedidos de treinamento técnico, organização dos campeonatos, estruturas táticas, marketing, psicologia esportiva, assessoria de imprensa e noções comportamento dentro e fora das quatro linhas. O futebol do resto do mundo foi estudar como se fazia isso que o brasileiro pensou que nascia sabendo.

Enquanto isso, por aqui, continuamos esperando a ascensão da próxima estrela, o aparecimento milagroso do novo Pelé: um garoto de dezessete anos que obrigasse o mundo a reformular o conceito de futebol. A cada vez que isso parecia ter ocorrido, um alvoroço de mídia, contratos e propagandas: foi assim com Robinho, foi assim com Alexandre Pato e é assim com Neymar. Continuamos supondo que o talento verdadeiro está no sangue.

Todavia, como as crianças de Terman, o futebol cresceu e já não é mais um moleque. Tem carteira assinada, compromissos rígidos, bate ponto e cobra seus honorários com a frieza e o calculismo de um advogado de firma. Aprendeu a viver sozinho, na maioria dos países, e emancipou-se da tutela de seus pais (leia-se governos). Nessa história, a criança superdotada, porém menos esforçada, foi ficando pra trás. Quem diria que logo a Espanha se tornaria a maior potência do futebol mundial? Que a Espanha, um desprezível adversário histórico, ensinaria o mundo a fazer futebol brasileiro? No fim das contas, na era do futebol adulto, ganha quem foi pra escola.