sábado, 9 de março de 2013

A história de uma criança - Parte 1

Algumas vezes o universo gosta de pregar peças. Uma criança um dia achou que era uma dessas peças do universo. Melhor, ele achou que era a própria peça que o universo queria pregar no universo. Deu pra entender?
Essa criança tinha suas particularidades. E eram tão particulares que não tinha coragem de comentar com ninguém. É que ela acreditava em coisas que uma criança não deveria acreditar. Não gostava das rainhas dos baixinhos, sequer acreditava em coelho da páscoa ou coisas do gênero. Quando criança, acreditava que as crianças, quando nasciam, já nasciam sabendo de tudo. E que o papel dos adultos era de imbecilizar as crianças. Claro, ele não sabia dessa palavra ainda, ou melhor, como gostava de pensar, por culpa dos adultos ele não sabia mais daquela palavra, ainda. Na sua visão, cada criança tinha uma gota de todo conhecimento do universo em si. E cada criança era a principio uma dessas peças que o universo prega, e o eram simplesmente porque sabiam de tudo, mas, ninguém sabia do que elas sabiam, e sendo assim, julgavam que não sabiam de nada. E por isso eram todos imbecilizados.
“Mundo de imbecis”, pensava.
E essa criança foi crescendo, foi pensando, e foi rindo do mundo. Quando estava quase deixando de ser criança, chegou à conclusão que ela existe nesse universo por um acaso. Porque existe um outro universo em que ela também existe, e em um desses universos ela sequer existe, porque, na cabeça daquela criança, o universo não é nada mais do que um ponto formado por duas linhas, não necessariamente retas, que se cruzam. E em cada cruzamento desses, existe tudo isso que nós conhecemos e cada pessoa dentro desse cruzamento é também uma linha. E em um desses inúmeros cruzamentos, as linhas da vida de duas pessoas não se cruzaram e ele não nasceu. Ops. Esqueci de dizer, essa criança também acredita em linha da vida, que, na cabeça dela, não é bem uma linha, seria uma teia, tipo de aranha, mas, uma aranha sob influência de LSD. (Claro, na época ela já havia desaprendido como uma aranha tecia sob influência do LSD, mas, um dia ela voltaria à saber.) Continuando, ele acreditava que a vida era apenas uma coincidência, e que talvez, em um outro universo, exista até um outro dele que seja loiro. Gostava de se imaginar cheio de irmãos, que são ele mesmo na verdade, só que de outros universos, e uns são loiros, outros ruivos, negros, brancos, mais novos, mais velhos...
E essa criança acreditava em muito mais. Acreditava em tantas coisas que às vezes a cabeça dela doía. Acreditava em tanta coisa que tinha dificuldade em acreditar nos absurdos que os adultos lhe falavam. Mas, ela ao menos decorava. E se dizia sabida, se dizia ter aprendido enquanto todos lhe diziam para parar de pensar.
E, de fato, ela às vezes parava. E quando parava de pensar, tinha certeza que era uma peça pregada por alguém. Ou por algo. Ou apenas, pensaria depois, um equívoco na fórmula do universo. É, ele um dia ia dizer que existe uma fórmula geral do universo, mas, isso não vem ao caso, ele é apenas uma criança ainda. E, enquanto criança, pensava nas possibilidades do ser humano se teletransportar. Eu já disse que não era uma criança normal né?
Pensava sobre isso, seriamente. Com toda seriedade que se pode esperar de uma criança de 11 anos. E chegou a uma conclusão: “é fácil se teletransportar!”. An? Explico. Melhor, ele explica... De acordo com ele, cada átomo (Nessa época, ele tinha acabado de reaprender o que é um átomo) está no lugar que está porque deve estar naquele lugar. Ou seja, o ser humano é um quebra cabeça, onde cada peça só se encaixa naquele devido lugar, e, mais do que isso, cada peça tem um número, só precisávamos aprender a ler todos esses números, desagrupá-los em números pequenos e depois reagrupar em outro lugar. Ele acreditava que cada um de nós era identificado por algo que é esse próprio mapa. E um dia chegaríamos lá.
Bom, curiosidades a parte, 3 anos depois conseguiram mapear o genoma humano, mas, isso não vem ao caso.
Acontece que uma criança não deve pensar essas coisas. E mesmo se pensar, uma criança não deve comentar essas coisas. Já se imaginaram com um segredo tão absurdo que você nem deve lembrar que sabe, e, de tanto não gostar de saber e pensar aquilo acaba esquecendo que sabe. Eis que um dia ele também não quis mais saber que sabia, e se imbecializou. E viveu feliz para sempre.


            Mentira. Na verdade, ele não conseguia dormir, ele não conseguia se sentar, ele não conseguia parar. O tempo todo era pouco tempo e tudo era muito pouco ou quase nada. E foram anos e anos assim, até que um dia simplesmente acordou. De repente, era como se algum irmão dele, que na verdade é ele, o viesse sacudir. E ele acorda e olha pro mundo com aqueles mesmo olhos de 12 anos atrás e diz:
            “- Esse texto continua, em breve...”