quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Quentin Tarantino, Django e o sonho de se fazer cinema


                 Antes de começar esse texto gostaria de dizer que Tarantino me deixou sem fôlego. Django é um filmaço! Um daqueles de sair do cinema com vontade de voltar e assistir de novo. Tem tudo o que se espera de um grande western: amor, vingança, um herói sem moral, diálogos de efeito e sangue, muito sangue. Tarantino, cinéfilo assumido, foi capaz de recriar um estilo consagrado e delicioso em seus mínimos detalhes, até mesmo nos ditos “defeitos”, nas palavras de críticos ressentidos.
                Recentemente li uma crítica de um famoso professor da UFG, especialista em cinema, por quem tenho bastante respeito e alguma admiração. Mas como vem sendo costume quando se trata de grandes sucessos de público, nosso querido professor acabou dizendo algumas bobagens. Entre outras coisas, disse que Tarantino errava ao reproduzir os diálogos longos e afetados dos antigos spaghetti westerns ou as cenas exageradas de tiroteios com seus efeitos especiais descalibrados.
                Ora! Mas se esses elementos formam exatamente os temperos do gênero! Os muitos que fazem esse tipo de colocação certamente no fundo nunca gostaram dos filmes de velho oeste. Talvez tenham se ressentido em ter que aceitar o sucesso de público e crítica internacional desse gênero de blockbusters que em algum momento da história foram alçados não se sabe como ao rol dos filmes cultos (fenômeno parecido com o ocorrido com filmes como Blade Runner ou o primeiro da trilogia Matrix). Provavelmente esses especialista se remoeram com a longa e quase silenciosa cena em que personagem de Lee Van Cleef janta com um homem (Luigi Pistilli) antes de mata-lo e a toda sua família sem motivo aparente, em Três Homens em Conflito. Certamente também se enfadaram das dezenas e dezenas de vezes em que Henry Fonda ou Clint Eastwood protagonizaram tiroteios inverossímeis sem desarrumarem seus cabelos. Mais: devem ter amaldiçoado cada espectador que se divertiu com “Meu Nome é Ninguém” ou “Trinity e seus amigos” e chego a supor que eles talvez, mas só talvez, tenham torcido para os índios em “Rastros de Ódio”.
                Mas nada disso importaria para Tarantino, pois ele brinca de fazer cinema. Sim, podem dizer o que quiserem, mas Quentin Tarantino faz filmes sobre cinema. Homenageia seus autores e gêneros favoritos em inúmeras passagens e não tem pudor do pastiche, que ele realiza com frequência e com constante sucesso. Cães de Aluguel, seu primeiro filme, tem diversas passagens “roubadas” de um filme chinês chamdo City on Fire. As semelhanças entre um e outro são tão grandes que à época do estouro de Cães de Aluguel um documentário sobre elas foi produzido com o título “Who Do You Think You’re Fooling?” (“Quem você pensa que está enganando?”). Passada a firula, o que ficou claro é que o cineasta americano gostou da história dos caras de Hong Kong e fez um filme com a mesma história, mas muito mais bem sucedido.
                Continuando sua mania de imitar filmes interessantes, nosso diretor fez Jacky Brown, um filme descaradamente intencionado a parecer com aquelas produções baratas das décadas de 1970 e  1980  que ficaram conhecidas como o gênero Blaxploitation. Pra não dar espaço para os chateadores, chamou para o papel principal a maior musa desses filmes, Pam Grier, inesquecível no papel de Foxy Brown no filme do mesmo nome dos anos 70.
                Esses são só os exemplos mais claros, mas há outros diversos. Em Pulp Fiction, outras referências deliciosas: Ele coloca John Travolta para dançar, suscitando saudades dos Embalos de Sábado a Noite, além de uma cena surreal em que o boxeador desfila por várias armas até decidir com qual mataria seus inimigos e faz um tour por diversos filmes de violência (O taco de basebol me lembra Joe Pescie em Bons Companheiros, a serra elétrica faz clara menção a O Massacre da Serra Elétrica, e até uma improvável espada Katana aparece em referência aos filmes de kung fu adorados por Tarantino).
                E assim ele vai fazendo sua carreira: Kill Bill não é apenas um filme de kung fu, mas um filme sobre os filmes de kung fu. Mesmo na cena que dirige em Grande Hotel (Four Rooms), ele recria uma situação que, segundo o próprio episódio, fora criado por Hitchckock em um seriado para a TV americana,  e assim se seguem os variados exemplos que eu poderia ficar citando por páginas a fio.
                E então, Tarantino tem finalmente a chance de realizar um dos meus sonhos de infância. Sonho de milhares de crianças pelo mundo em diversas épocas: produzir e atuar em seu próprio filme de velho oeste. Imagine só por um segundo que você pudesse fazer o seu próprio western, com música tema original assinada por Ennio Morricone? Sim, exatamente como os grandes cineastas que encantaram suas fantasias juvenis. Mais do que isso, você pode colocar Jamie Foxx, o primeiro negro a ganhar um Oscar de melhor ator no cinema, para fazer um escravo forro que mata brancos por dinheiro. Pode colocar Leonardo Di Caprio para atuar no papel de um vilão absolutamente desprezível e ter ninguém menos que Samuel L. Jackson em seu elenco, dando-se o ainda direito de participar de uma das cenas.
                Pois Tarantino fez tudo isso. Ao seu modo, com seus diálogos maravilhosos e inesquecíveis, criou uma trama digna do estilo. Fez suspirar os fãs dos bang bangs, fez plateias esconderem o rosto em cenas duras e deu ao gênero a sua marca inconfundível.