terça-feira, 3 de setembro de 2013

P.

Enquanto aspirante a poeta,
Entre um suspiro e outro,
Atrevia a prever o futuro,
E o custo que esse teria.

E nesse jogo de inspira-expira,
Respira. Pira. Inspiração...
Pirava com o medo da maturação.
O que o monstro da razão me traria?

Trairia. Essa era a única certeza.
Anos treinando a libertinagem da mente,
Do corpo, dos prazeres e dos amores.
E a razão era a própria traição do prazer.

Viver e gozar sempre. Sem fim.
Pensar sem prazer,
Portanto, com razão,
Era tirar do poeta a sua alma,
Sua primeira inspiração.

Mas, tal qual a morte,
A maturidade da razão chegou.
E se fez presente.
E tal qual a morte, impôs-se, absoluta.
E não houve mais nada.
E todo o prazer que sentia,
Eram agora inflexões frias,
Rígidas como o mármore,
Mas não tão belas.

E a razão levou o verso,
Escondendo sob prosa,
Disfarçando-o em sorrisos,
Em trechos, desmembrando-o,
Enfraquecendo-o.

Mas...
Poeta ainda é gente.
E gente respira.
E poeta respira.
Inspira, expira. (espirra)
Inspiração.
Inspiração madura, se é o caso.
Que não me permite falar de amor,
Mas me permite falo.
E o falo fala em desejo.
O desejo que permeia meu sangue,
Que gela. Coração que para.
Boca que seca. Olhos que brilham.
Língua que sonha com a sua.
Corpo que sua, sonhando suar e soar você.
A cada dia, a cada vez, em cada olhar que olho você.
Inspiração...
No dia em que meu corpo enfim tocar o seu,
Sentarei para te observar.
Vou gravar cada pedacinho seu na memória.
Esculpir o mármore de minha razão com suas curvas.
Deixar o fogo do desejo, mesmo que brega,
Tatuar seu corpo, seu cheiro, seu seio.
No meu corpo, meu próprio leito.

Einstein, ao dizer que o tempo é relativo,
Não pensava sobre o universo,
Sobre átomos ou leis.
Einstein fazia sexo.
E no grito do gozo do sexo,
Viu eternizar segundos,
Enquanto horas passariam voando.

Razão, peço que venhas.
E que me abrace, me amadureça.
Que o sabor de teus frutos sejam ácidos,
Inesquecíveis e exóticos, apetitosos.
Que sejam doces, amargos e salgados.
Que incendeiem a alma, o Thymós.
Que seja. Que venha.
Que eu seja, que eu vá,

Viver.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Arnaldo Jabour- Imbecil ou calhorda?





Arnaldo Jabour fez por esses dias um comentário pra lá de infeliz no seu jornal. Não que eu o considere um sujeito de boas opiniões, ou que esperasse dele uma postura coerente sobre as manifestações populares, mas o que disse Jabour beira ao ridículo e nos obriga a nos perguntarmos se ele foi só imbecil ou profundamente canalha.
Jabour abriu a boca não para emitir uma opinião crítica sobre o assunto, mas para se aproveitar da sua posição de figura intelectual (afinal, já foi cineasta, e cinema é coisa de intelectual, né não?) para atacar sorrateiramente as manifestações contra a alta das tarifas de ônibus e jogar os milhões de populares que assistem a Rede Globo a favor do Estado e da Polícia violenta e contra a outra parte da população que, cansada de ser escorchada, deu a cara a tapa.
Para começar, ele diz que violência parecida só se viu quando o PCC, organização criminosa, resolveu atacar São Paulo pra mostrar seu poder. Não é à toa que se faz esse tipo de comparação: manifestantes = criminosos. Afinal de contas, para os donos do poder, qualquer ação contra a hegemonia é uma infração.
 Em um dos momentos do discurso, o crítico do JN disse, com a cara mais deslavada dos covardes, que era visível que a maioria dos manifestantes era de filhos da classe média, e que aqueles 20 centavos não fariam nenhuma falta pra eles.  Mas Jabour, então é isso? Você só pode lutar pelas causas que te beneficiam diretamente? Então eu não posso defender o direito do mais pobre se eu ganhar três salários mínimos em vez de um só? Afinal de contas, uma das formas de pensar o convívio em sociedade não é aquela em que o indivíduo defende seus próprios interesses ao mesmo tempo em que contribui para o bem estar da maioria?
Fico imaginando se esse senhor, tão bem formado e tão respeitado pela sua “inteligência”, estivesse vivo nos efervescentes anos que antecederam a lei áurea. Provavelmente teria criticado os Caifases e diria sobre José de Alencar, Ruy Barbosa e outros: “Esses aí só estão lá pela baderna! Nem sequer são negros!”.
Mais pra frente, Arnaldo Jabour continua com suas elucubrações fajutas com um dos piores argumentos anti-qualquer-manifestação-que-seja. Ele diz algo como: “Esses centavos não vão fazer falta, por que ninguém reclama contra a aprovação da PEC 37?”. Opa! Então uma causa inviabiliza a outra? É assim que se deve pensar? Vejamos onde daria esse tipo de raciocínio:
“Por que protestar contra a passagem, se tem uma manobra pra aprovar uma PEC que vai facilitar a vida dos corruptos?” / “Mas como manifestar contra essa PEC se tem tanto problema na saúde pública?” / “E adianta reclamar por saúde se a violência está como está? Temos que protestar por segurança?” / “Segurança? Você classe média só está pensando em segurança, enquanto milhares morrem de fome...” / “Fome... mas a grande causa da fome é a corrupção, e essa PEC 37...”. E assim se volta à estaca zero, numa esperta estratégia de jogar os interessados em boas mudanças contra os interessados em outras boas mudanças.
E no final disso tudo, a gente precisa se perguntar: será que ele conseguiu mesmo ser tão imbecil ou foi um mau-caráter por profissão?

Link pra matéria: http://g1.globo.com/jornal-da-globo/videos/t/edicoes/v/arnaldo-jabor-fala-sobre-onda-de-protestos-contra-aumento-nas-tarifas-de-onibus/2631566/

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Por que morreu o Futebol Moleque



             Muitos anos atrás, mais especificamente durante as primeiras décadas do século XX, um renomado psicólogo americano chamado Lewis Terman deu início a uma empreitada extraordinária para provar, como ansiavam as principais correntes cientificistas da época, que os altos índices de QI verificados na infância estavam inexoravelmente atrelados ao sucesso intelectual e profissional das pessoas na fase adulta. Sua pesquisa estava pautada na ideia de que crianças bem sucedidas possuíam genes de elite, que as conduziriam pelo sucesso por toda a vida.

            Para realizar esse trabalho, Terman e sua equipe passaram a acompanhar uma amostragem de 1500 crianças californianas classificadas como “excepcionalmente superiores”. Com o passar dos anos, no entanto, os superdotados de Terman não corresponderam como esperado e tiveram, maior parte das vezes, carreiras apenas satisfatórias. No lado oposto, entre os “rejeitados de Terman” (crianças que foram avaliadas e tiveram desempenho considerado insuficiente), dois vencedores do Prêmio Nobel de Física: William Shockley, em 1956 e Luis Walter Alvarez em 1968, como conta o livro O Gênio em Todos Nós, de David Shenk. Afinal de contas, o sucesso sempre esteve mais ligado ao esforço e à dedicação do que qualquer capacidade inata.

            Você que me lê deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o chamado futebol-arte, ou o aclamado futebol moleque, invenção e patente brasileiras. Tal e qual as crianças estudadas por Lewis Terman, o futebol cresceu, amadureceu e teve que encarar a dura realidade do mundo competitivo. Sim, se no passado o futebol gostava de calçar chinelos e podia acontecer em qualquer lugar ou qualquer esquina, hoje ele tem lugar e hora específicos para acontecer, e um aparato tecnológico inimaginável até a década de 1980.

            Até especialmente o final dos anos 70 e início dos anos 80, o Brasil se mostrou uma aparentemente inesgotável fábrica de craques, jogadores geniais que saíam de onde menos se poderia imaginar e ganhavam o mundo com seu talento e habilidade. Não há como discutir que Pelé, Tostão, Garrincha, Gérson, Zico, Sócrates e Falcão, pra citar só alguns, eram superdotados no assunto bola. Mas mesmo nos times pequenos e eventualmente até no futebol amador surgiam equipes e figuras míticas dos gramados. 

Exemplos disso não faltam: Podemos citar, por exemplo, o time do Uberaba Esporte Clube que, pelas oitavas de final do Campeonato Brasileiro de 1981, empatou em casa e chegou a estar vencendo o segundo jogo contra a Flamengo em pleno Maracanã por 2 x 0 até levar a virada e perder por 4 x 2 do time de Zico, Junior e cia. Outro dia assisti também a uma matéria no Esporte Espetacular que contava como o Botafogo de Garrincha, Didi e Nilton Santos, base da seleção campeã mundial na Suécia em 1958, empatara com o modesto Carlos Renaux, time da pacata cidade de Brusque, no interior de Santa Catarina, pelo belíssimo placar de 5 x 5.

O brasileiro aprendeu a acreditar que aqui, pelo menos, o futebol é genético. Tudo o que se precisa fazer para ganhar uma copa do mundo é esperar a próxima safra de craques, o próximo comboio de garotos prodígio do nosso superdotado futebol. Eventualmente eles até apareceram: Romário em seu tempo, Ronaldo e Rivaldo em seguida e alguns outros lampejos, como Ronaldinho Gaúcho.

Enquanto isso, no resto do mundo, o futebol menos brilhante, sem genes superiores, foi ao trabalho: incessantes estudos sobre o melhor formato de preparação física dos atletas, os modelos mais bem sucedidos de treinamento técnico, organização dos campeonatos, estruturas táticas, marketing, psicologia esportiva, assessoria de imprensa e noções comportamento dentro e fora das quatro linhas. O futebol do resto do mundo foi estudar como se fazia isso que o brasileiro pensou que nascia sabendo.

Enquanto isso, por aqui, continuamos esperando a ascensão da próxima estrela, o aparecimento milagroso do novo Pelé: um garoto de dezessete anos que obrigasse o mundo a reformular o conceito de futebol. A cada vez que isso parecia ter ocorrido, um alvoroço de mídia, contratos e propagandas: foi assim com Robinho, foi assim com Alexandre Pato e é assim com Neymar. Continuamos supondo que o talento verdadeiro está no sangue.

Todavia, como as crianças de Terman, o futebol cresceu e já não é mais um moleque. Tem carteira assinada, compromissos rígidos, bate ponto e cobra seus honorários com a frieza e o calculismo de um advogado de firma. Aprendeu a viver sozinho, na maioria dos países, e emancipou-se da tutela de seus pais (leia-se governos). Nessa história, a criança superdotada, porém menos esforçada, foi ficando pra trás. Quem diria que logo a Espanha se tornaria a maior potência do futebol mundial? Que a Espanha, um desprezível adversário histórico, ensinaria o mundo a fazer futebol brasileiro? No fim das contas, na era do futebol adulto, ganha quem foi pra escola.

sábado, 9 de março de 2013

A história de uma criança - Parte 1

Algumas vezes o universo gosta de pregar peças. Uma criança um dia achou que era uma dessas peças do universo. Melhor, ele achou que era a própria peça que o universo queria pregar no universo. Deu pra entender?
Essa criança tinha suas particularidades. E eram tão particulares que não tinha coragem de comentar com ninguém. É que ela acreditava em coisas que uma criança não deveria acreditar. Não gostava das rainhas dos baixinhos, sequer acreditava em coelho da páscoa ou coisas do gênero. Quando criança, acreditava que as crianças, quando nasciam, já nasciam sabendo de tudo. E que o papel dos adultos era de imbecilizar as crianças. Claro, ele não sabia dessa palavra ainda, ou melhor, como gostava de pensar, por culpa dos adultos ele não sabia mais daquela palavra, ainda. Na sua visão, cada criança tinha uma gota de todo conhecimento do universo em si. E cada criança era a principio uma dessas peças que o universo prega, e o eram simplesmente porque sabiam de tudo, mas, ninguém sabia do que elas sabiam, e sendo assim, julgavam que não sabiam de nada. E por isso eram todos imbecilizados.
“Mundo de imbecis”, pensava.
E essa criança foi crescendo, foi pensando, e foi rindo do mundo. Quando estava quase deixando de ser criança, chegou à conclusão que ela existe nesse universo por um acaso. Porque existe um outro universo em que ela também existe, e em um desses universos ela sequer existe, porque, na cabeça daquela criança, o universo não é nada mais do que um ponto formado por duas linhas, não necessariamente retas, que se cruzam. E em cada cruzamento desses, existe tudo isso que nós conhecemos e cada pessoa dentro desse cruzamento é também uma linha. E em um desses inúmeros cruzamentos, as linhas da vida de duas pessoas não se cruzaram e ele não nasceu. Ops. Esqueci de dizer, essa criança também acredita em linha da vida, que, na cabeça dela, não é bem uma linha, seria uma teia, tipo de aranha, mas, uma aranha sob influência de LSD. (Claro, na época ela já havia desaprendido como uma aranha tecia sob influência do LSD, mas, um dia ela voltaria à saber.) Continuando, ele acreditava que a vida era apenas uma coincidência, e que talvez, em um outro universo, exista até um outro dele que seja loiro. Gostava de se imaginar cheio de irmãos, que são ele mesmo na verdade, só que de outros universos, e uns são loiros, outros ruivos, negros, brancos, mais novos, mais velhos...
E essa criança acreditava em muito mais. Acreditava em tantas coisas que às vezes a cabeça dela doía. Acreditava em tanta coisa que tinha dificuldade em acreditar nos absurdos que os adultos lhe falavam. Mas, ela ao menos decorava. E se dizia sabida, se dizia ter aprendido enquanto todos lhe diziam para parar de pensar.
E, de fato, ela às vezes parava. E quando parava de pensar, tinha certeza que era uma peça pregada por alguém. Ou por algo. Ou apenas, pensaria depois, um equívoco na fórmula do universo. É, ele um dia ia dizer que existe uma fórmula geral do universo, mas, isso não vem ao caso, ele é apenas uma criança ainda. E, enquanto criança, pensava nas possibilidades do ser humano se teletransportar. Eu já disse que não era uma criança normal né?
Pensava sobre isso, seriamente. Com toda seriedade que se pode esperar de uma criança de 11 anos. E chegou a uma conclusão: “é fácil se teletransportar!”. An? Explico. Melhor, ele explica... De acordo com ele, cada átomo (Nessa época, ele tinha acabado de reaprender o que é um átomo) está no lugar que está porque deve estar naquele lugar. Ou seja, o ser humano é um quebra cabeça, onde cada peça só se encaixa naquele devido lugar, e, mais do que isso, cada peça tem um número, só precisávamos aprender a ler todos esses números, desagrupá-los em números pequenos e depois reagrupar em outro lugar. Ele acreditava que cada um de nós era identificado por algo que é esse próprio mapa. E um dia chegaríamos lá.
Bom, curiosidades a parte, 3 anos depois conseguiram mapear o genoma humano, mas, isso não vem ao caso.
Acontece que uma criança não deve pensar essas coisas. E mesmo se pensar, uma criança não deve comentar essas coisas. Já se imaginaram com um segredo tão absurdo que você nem deve lembrar que sabe, e, de tanto não gostar de saber e pensar aquilo acaba esquecendo que sabe. Eis que um dia ele também não quis mais saber que sabia, e se imbecializou. E viveu feliz para sempre.


            Mentira. Na verdade, ele não conseguia dormir, ele não conseguia se sentar, ele não conseguia parar. O tempo todo era pouco tempo e tudo era muito pouco ou quase nada. E foram anos e anos assim, até que um dia simplesmente acordou. De repente, era como se algum irmão dele, que na verdade é ele, o viesse sacudir. E ele acorda e olha pro mundo com aqueles mesmo olhos de 12 anos atrás e diz:
            “- Esse texto continua, em breve...”

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Quentin Tarantino, Django e o sonho de se fazer cinema


                 Antes de começar esse texto gostaria de dizer que Tarantino me deixou sem fôlego. Django é um filmaço! Um daqueles de sair do cinema com vontade de voltar e assistir de novo. Tem tudo o que se espera de um grande western: amor, vingança, um herói sem moral, diálogos de efeito e sangue, muito sangue. Tarantino, cinéfilo assumido, foi capaz de recriar um estilo consagrado e delicioso em seus mínimos detalhes, até mesmo nos ditos “defeitos”, nas palavras de críticos ressentidos.
                Recentemente li uma crítica de um famoso professor da UFG, especialista em cinema, por quem tenho bastante respeito e alguma admiração. Mas como vem sendo costume quando se trata de grandes sucessos de público, nosso querido professor acabou dizendo algumas bobagens. Entre outras coisas, disse que Tarantino errava ao reproduzir os diálogos longos e afetados dos antigos spaghetti westerns ou as cenas exageradas de tiroteios com seus efeitos especiais descalibrados.
                Ora! Mas se esses elementos formam exatamente os temperos do gênero! Os muitos que fazem esse tipo de colocação certamente no fundo nunca gostaram dos filmes de velho oeste. Talvez tenham se ressentido em ter que aceitar o sucesso de público e crítica internacional desse gênero de blockbusters que em algum momento da história foram alçados não se sabe como ao rol dos filmes cultos (fenômeno parecido com o ocorrido com filmes como Blade Runner ou o primeiro da trilogia Matrix). Provavelmente esses especialista se remoeram com a longa e quase silenciosa cena em que personagem de Lee Van Cleef janta com um homem (Luigi Pistilli) antes de mata-lo e a toda sua família sem motivo aparente, em Três Homens em Conflito. Certamente também se enfadaram das dezenas e dezenas de vezes em que Henry Fonda ou Clint Eastwood protagonizaram tiroteios inverossímeis sem desarrumarem seus cabelos. Mais: devem ter amaldiçoado cada espectador que se divertiu com “Meu Nome é Ninguém” ou “Trinity e seus amigos” e chego a supor que eles talvez, mas só talvez, tenham torcido para os índios em “Rastros de Ódio”.
                Mas nada disso importaria para Tarantino, pois ele brinca de fazer cinema. Sim, podem dizer o que quiserem, mas Quentin Tarantino faz filmes sobre cinema. Homenageia seus autores e gêneros favoritos em inúmeras passagens e não tem pudor do pastiche, que ele realiza com frequência e com constante sucesso. Cães de Aluguel, seu primeiro filme, tem diversas passagens “roubadas” de um filme chinês chamdo City on Fire. As semelhanças entre um e outro são tão grandes que à época do estouro de Cães de Aluguel um documentário sobre elas foi produzido com o título “Who Do You Think You’re Fooling?” (“Quem você pensa que está enganando?”). Passada a firula, o que ficou claro é que o cineasta americano gostou da história dos caras de Hong Kong e fez um filme com a mesma história, mas muito mais bem sucedido.
                Continuando sua mania de imitar filmes interessantes, nosso diretor fez Jacky Brown, um filme descaradamente intencionado a parecer com aquelas produções baratas das décadas de 1970 e  1980  que ficaram conhecidas como o gênero Blaxploitation. Pra não dar espaço para os chateadores, chamou para o papel principal a maior musa desses filmes, Pam Grier, inesquecível no papel de Foxy Brown no filme do mesmo nome dos anos 70.
                Esses são só os exemplos mais claros, mas há outros diversos. Em Pulp Fiction, outras referências deliciosas: Ele coloca John Travolta para dançar, suscitando saudades dos Embalos de Sábado a Noite, além de uma cena surreal em que o boxeador desfila por várias armas até decidir com qual mataria seus inimigos e faz um tour por diversos filmes de violência (O taco de basebol me lembra Joe Pescie em Bons Companheiros, a serra elétrica faz clara menção a O Massacre da Serra Elétrica, e até uma improvável espada Katana aparece em referência aos filmes de kung fu adorados por Tarantino).
                E assim ele vai fazendo sua carreira: Kill Bill não é apenas um filme de kung fu, mas um filme sobre os filmes de kung fu. Mesmo na cena que dirige em Grande Hotel (Four Rooms), ele recria uma situação que, segundo o próprio episódio, fora criado por Hitchckock em um seriado para a TV americana,  e assim se seguem os variados exemplos que eu poderia ficar citando por páginas a fio.
                E então, Tarantino tem finalmente a chance de realizar um dos meus sonhos de infância. Sonho de milhares de crianças pelo mundo em diversas épocas: produzir e atuar em seu próprio filme de velho oeste. Imagine só por um segundo que você pudesse fazer o seu próprio western, com música tema original assinada por Ennio Morricone? Sim, exatamente como os grandes cineastas que encantaram suas fantasias juvenis. Mais do que isso, você pode colocar Jamie Foxx, o primeiro negro a ganhar um Oscar de melhor ator no cinema, para fazer um escravo forro que mata brancos por dinheiro. Pode colocar Leonardo Di Caprio para atuar no papel de um vilão absolutamente desprezível e ter ninguém menos que Samuel L. Jackson em seu elenco, dando-se o ainda direito de participar de uma das cenas.
                Pois Tarantino fez tudo isso. Ao seu modo, com seus diálogos maravilhosos e inesquecíveis, criou uma trama digna do estilo. Fez suspirar os fãs dos bang bangs, fez plateias esconderem o rosto em cenas duras e deu ao gênero a sua marca inconfundível.