quinta-feira, 25 de março de 2010

Monólogo de uma Apaixonada.

Antes de começar, queria dizer que é uma honra poder replicar esse texto, de Dois Grandes Amigos Meus. Grandes mesmo. Daqueles que me fazem ver, como sou pequeno, como tenho sempre muito o que aprender.
Obrigado.

“- Bom dia, amor.”
Repousada no peito do amado, ela abre os olhos com um sorriso de quem acabou de despertar de um sonho bom... e pousa-lhe em seus lábios um beijo doce e suave.
“ – Dormi como se não fosse acordar mais, sonhei a noite inteira com você e posso afirmar que você é sempre o meu melhor sonho.”
Sente seus cabelos sendo levemente acariciados e ainda aninhada nos braços dele, ela continua a sonhar, só que agora acordada..
“ – Meu amor, você consegue nos imaginar daqui a alguns anos? Você consegue ver que a nossa vida será sempre essa, de um acordar sempre embalado no abraço do outro...”
“ Você consegue ao fechar os olhos se recordar de tudo o que já passamos?”
Um leve suspiro.
“ – Se lembra da primeira vez que nos vimos? Eu me encantei com o seu sorriso, e você [risos] só sabia ficar fazendo piadinhas.. me encarando profundamente.
“ E nosso primeiro beijo? Inusitado, apaixonado, fervoroso. O engraçado, é que quem ficou com vergonha foi você, me virou as costas escondendo um sorriso.
Eu consigo me recordar da roupa, do corte de cabelo e até de tudo o que conversamos no nosso primeiro encontro.
Você se lembra, amor? Você consegue fazer como eu, que só de fechar os olhos vê toda a nossa história, consegue?
Então, você deve se lembrar do dia do nosso noivado! Foi lindo, né? Nossa família toda reunida, compartilhando nossa felicidade e nos, loucos pelo casamento... Ah o nosso casamento! Acho que foi a única vez que você me deixou totalmente irritada. “Sim, eu sei que você sempre foi do contra, mas me aprontar aquela...”
[risos do companheiro]
“ Foi muito engraçado, mas só para você. Hahá, quem devia chegar atrasada era eu, não você. Admito, foi muito hilário você aparecer do nada, lindo e com aquele sorriso perfeito. Ali eu tive a certeza da minha vida, eu te amava! Obvio, eu amo.
Nossa festa foi linda, nem me fale! Pena que ao invés da minha irmã pegar o buquê, quem pegou foi teu melhor amigo. Do contra de novo.
Nossa lua-de-mel, em vez de Búzios ou Fernando de Noronha, me fez ir pegar caranguejos no mangue. Morria de rir dos meus sustos e da minha incorrigível inabilidade na lama. E naquele dia em que voltei pra pousada com um balde cheio deles logo de manhã e você fingiu que nem sabia que eram comprados? Comemos todos e depois dormimos na praia.
Aliás, foi naquela praia que fizemos nosso primeiro bebê, filho de um amor maluco embaixo dum céu gigante, naquela chuva que não parava nunca. Ninguém além de você iria pra praia num temporal daquele. Além de nós, né, amor? Você me arrastou pra lá, corremos feito duas crianças, amamos como dois bichos, rimos igual a dois bobos. Que dia era aquele? Não sei se era maio ou abril, mas o que importa? Parece que durou uma vida inteira.
Sabe o que encontrei, ontem de noite? As fotos de quando nasceu o Heitor. A cara de contrariedade dos médicos porque você não parava de rir e de fotografar. Lembrei de como eu estava horrorosa e descabelada naquele pijama azul claro e você dizendo que eu era a mulher mais linda do mundo. Você sempre foi um exagerado, mas eu amo isso. Depois o Nícolas, nasceu enorme, quase me matou de dor. Toda vez que você chegava perto da minha barriga ele se revirava e me chutava, louco pra conhecer o pai. Eu preciso confessar, tive até ciúmes. Eu sou boba, eu sei.
Nunca consegui te dar uma menina. Sempre sonhei com isso, acho que queria mais do que você, mas você sempre foi minha desculpa. Até hoje você é a minha desculpa pra acordar sorrindo todos os dias.
Mesmo depois do acidente, mesmo depois que você perdeu a fala e os movimentos das pernas... Sua mãe me disse que, se você pudesse falar, ia dizer pra eu construir uma vida nova, buscar outro homem. Você não me diria isso, não é, amor? Eu sei que não diria.
Meu amor, você consegue nos imaginar daqui a alguns anos? Você consegue ver que a nossa vida será sempre essa, de um acordar sempre embalado no abraço do outro?


Eu te amo, tanto."
Bonnie Tyler - Total Eclipse of the Heart

_________________________________________________________________________________

Obrigada, M. por ter dado esse toque especial no nosso post. Sabe que sou sua fã.

Marioh e M.

http://arautosdavidamoderna.blogspot.com

terça-feira, 16 de março de 2010

Ruminações

Acendo um cigarro e apago em seguida; é o quarto em menos de quinze minutos. O maço vermelho e dourado sugere a combinação mascarada de sensações que meu corpo não reconhece. Folheio o livro rapidamente tentando recordar em que página estava e sequer me lembro que livro é. As letras parecem pequenas e não consigo ler. Não faz mal, o livro não importa, é um velho amigo e ao lado dos amigos podemos ficar calados. Passo os dedos nos meus cabelos desde a testa até a nuca e seguro firme. Estão grandes, preciso cortá-los. Meu estômago indisposto recusa o pedaço de Meio Amargo que coloco na boca com um gole de café. Sorrio calmamente.

Sonhei com uma onça, dia desses; minha avó paterna disse que é sinal de sorte. Meu avô materno mandou jogar no jogo do bicho e eu não entendi por que ria. Só ontem fui descobrir, na hora da aposta, que não tem onça no jogo. Apostei no porco por ironia.

Coloco o livro sobre a mesa e ele fecha. Agora vejo que é um Sthendal: O Vermelho e o Negro. Não recordo o nome de um personagem sequer, mas o brasão grafado na capa vermelha e grossa me distrai. Sinto um espasmo abdominal e quase vomito. Parece que estou de ressaca, embora eu não beba há meses. A bermuda rasgada denuncia meu desleixo. Em algum lugar ouço tocar Arabella, do Strauss. Tenho vizinhos de bom gosto.

Reflito sobre uma notícia do jornal matinal: morreu Glauco, um dos nossos grandes cartunistas. Sinto uma certa tristeza, aprendi a rir das tiras de Glauco desde criança; por outro lado me dou conta de que não conhecia o rosto dele até hoje. Não é engraçado que a boa arte faça a obra muito mais popular do que o artista?

Me estico sobre a cadeira de fios e estralo meu corpo. Minhas costas se acomodam na estrutura de silicone e sinto uma leve sensação de relaxamento. Penso em dormir, mas não posso: daqui a pouco começam as finais do Ultimate Fight e não quero perder um chute sequer. Derrubo algo e tenho preguiça de ver o que é. Pelo som, deve ser de plástico. Me concentro no anúncio de creme dental que promete curar minha dor de dente. Sinto sede. Faz duas horas que tenho vontade de ir ao banheiro. Fecho os olhos pra escutar melhor a ópera alemã que vem acho que do andar de cima. Descanso. Apanho aquele mesmo cigarro e acendo. Não sinto o gosto, melhor assim.

Outro dia, li uma crônica do Rubem Braga sobre um menino que nasceu com o coração fora do peito, nas palavras do médico, "como se fora um coração postiço". Não tem nada a ver com o que sinto agora, mas as palavras do Braga sempre me inspiram. Tento imaginar o menino com o coração exposto, desprotegido... sinto inveja. Coloco dois dedos no pescoço pra sentir minha pulsação e lembro que não sei como medir isso. O calor do dia me agride. Sinto sono. Penso mais uma vez no Rubem Braga e suas crônicas. Me sinto assim: episódico.

Ontem fui ao psicanalista e fiquei o tempo todo calado. Ele tentava, em vão, me fazer dizer algo. Num momento de raiva, chegou a questionar se o estava provocando ou por que motivo fora ali. Gosto daquele estofado, confesso. Ele não sabe que transei com sua secretária. Entretanto, não foi por ela nem pelo estofado; eu queria mesmo que ele provasse do próprio silêncio. Saí de lá e fui tomar sorvetes. Andei pela Praça Cívica e lanchei um salgado gorduroso. Voltei pra casa caminhando.

Há dias me pergunto: é possível amar mais de seis bilhões de semelhantes?

Em casa me afundei em livros de arquitetura medieval por diversão ou tédio. Li até às quatro da manhã. Agora começam as lutas do UFC e não quero abrir os olhos, apenas ouço a narração. Me diverte pensar em como seriam as narrações de lutas pelo rádio. Me irrito porque meu vizinho abaixou o volume da música. Maldito canalha! Meu pé esquerdo formiga e preciso me mexer. Em minha mente, imagino coisas estranhas. O cigarro acabou e percebo que fumo o filtro. Sinto nojo e cuspo.

Aos poucos acordo meus músculos e tento abrir os olhos. A batalha está no intervalo. Vejo um lutador branco com sangue escorrendo do supercílio e acho bonito. Levanto cambaleante e vou ao banheiro. Jogo água quente sobre a cabeça. O chuveiro faz um som engraçado e começo a rir. Me enxugo com uma camiseta e corro pro quarto. Deito do lado oposto da cama, sinto cheiro de perfume feminino e não recordo quem dormiu comigo esta noite. Já não tenho certeza de que não bebi. Seria loira ou morena? Talvez ruiva, que importa? Durmo.

Acordo.

Acendo um cigarro e apago em seguida; é o quarto em menos de quinze minutos. O maço vermelho e dourado sugere a combinação mascarada de sensações que meu corpo não reconhece. Folheio o livro rapidamente tentando recordar em que página estava e sequer me lembro que livro é. As letras parecem pequenas e não consigo ler. Não faz mal, o livro não importa, é um velho amigo e ao lado dos amigos podemos ficar calados. Sonhei com uma onça, dia desses. O calor do dia me agride. Me sinto assim: episódico. É possível amar mais de seis bilhões de semelhantes? Sinto nojo e cuspo. Imagino coisas estranhas. Já não tenho certeza de que não bebi. Acendo um cigarro e apago em seguida; é o quarto em menos de quinze minutos. Penso em dormir. Me sinto assim: episódico. Sinto nojo e cuspo. Que importa? Durmo. Acordo. Acendo um cigarro e apago em seguida;

segunda-feira, 15 de março de 2010

De volta à ativa.

Já perdi a conta de quantas vezes “abandonei” este blog temporariamente. Sempre me justifico com boas desculpas: a falta de tempo, o excesso de compromissos, a falta de textos bons... Ou então, na pior das hipóteses, me apoio na desculpa da quantidade de bons textos do Fernando que me “desobrigam” de postar. Desta vez, vou usar essa segunda.
Acontece, também, que sou um sujeito muito instável. Duplamente geminiano, por um acidente de astrológico, mudo de idéias e personalidade constantemente. O resultado disso é que as mesmas coisas que achava interessantes até anteontem, hoje simplesmente não fazem cócegas no meu cérebro. Os mesmos textos que escrevi meses atrás e que, confesso, na época achei excelentes, hoje me parecem besteiras adolescentes. Leio com certa vergonha, pra não dizer repúdio.
Não me refiro a questões especificamente literárias; já passei dessa fase, e nem acho que seja objetivo de um blog qualquer preocupação desse teor, mas às vezes tenho a impressão de que, por um tempo, estive vazio de assuntos e alienado de mim. Sensação desagradável.
Mais do que isso, diria que eu próprio me passo por essas transformações, completamente, como se precisasse matar o Marcus de agora a pouco pra fazer o de imediatamente. Não sei quem foi que disse que é preciso matar pai e mãe pra fazer nascer a personalidade própria. Foi Nietzsche? Foi Freud? (se não foi, me perdoem os leitores estudantes de psicologia – ou seja: quase todos). Não recordo quem disse, mas vou sempre mais longe: mato a mim mesmo pra poder nascer de novo, no meu ritual – até então secreto – de auto-renovação. Aliás, sou um sujeito superficial e por isso é fácil matar histórias que vivi ou inventei, tanto quanto foi fácil inventá-las. O comunista de ontem vende ações bancárias amanhã cedo, e depois de manhã vira filantropo. Sou assim: odeio hoje o que amava ontem e amanhã esqueço o que era.
Aqui cabem uns parênteses: não se assustem, meninas. Não sou um monstro frio e sem doçura, como pode parecer. A verdade é que não sei viver meios-sentimentos. Estou sempre pleno deles e preciso me livrar dos antigos pra desfrutar dos novos.
A intenção de toda esta lorota, ao cabo das coisas, é dizer que vou voltar a postar textos no blog em breve, mas talvez não agrade, talvez surpreenda, talvez fique incompreensível. Sobretudo, o autor dos próximos textos não é o mesmo dos textos passados; ele ri das coisas que o predecessor escreveu e faz escárnio. É assim: um sujeito... novo.
Antes que me perguntem, sim, estou muito bem e muito feliz. Com o peito pulsando em boas expectativas e o prazer de apenas estar.
Ah! Aproveitando pra perguntar: como vão vocês?

domingo, 7 de março de 2010

"Era um garoto, que como eu..."

Era uma vez um garoto. Camponês. Apaixonado pelas estrelas, pelos céus, pelas grandes viagens e grandes descobertas. Queria conhecer o mundo e por o mundo em suas mãos. Sempre sonhara em ser astronauta, em tocar as estrelas, beijar a lua e ser feliz. Que pena. Na sua nave montada no topo de sua arvore, construída por ele mesmo, desde criança, viajava e conhecia o mundo, as estrelas, as tocava e as amava. Mas, ele gostara tanto daquilo, que sempre se esquecia do que era, de aonde estava e para onde iria. Ele era apenas um camponês. Plebeu. Estava no chão. As estrelas não o amavam e a lua não o queria. Ele nunca havia beijado a lua, e não conhecia o gosto do amor. Seus sonhos eram apenas sonhos. A nave era um sonho. E ele sempre acordava. Chorando, mas acordava.


Eu sou o garoto.

Vocês são as estrelas.

Meu corpo é a arvore.

A nave são meus valores.

E não sei o que é amar.