sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Estava no meu quarto e escrevia o quanto sofria com o meu estado de solidão. Que não sei ficar sem ter alguém e como me faz falta ter em quem pensar ou a quem mandar versinhos improvisados.

Nessa hora tocou o telefone e recebemos a notícia do falecimento do avô paterno da Izinha, seu Ermenegildo. O velho estava internado há algum tempo e se foi, como é a natureza das coisas. Izinha me abraçou e chorou nos meus braços, sem dizermos uma palavra.

Depois disso achei injusto chamar o que eu sentia de sofrimento. Voltei ao quarto e rasguei para sempre as bobagenzinhas do papel.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Que seria, se teu fosse?

(Meu último poema romântico)

Se tu fosses um vulcão
Eu seria lava quente
Se eu fosse lava quente
Tu serias mata seca
Se eu fosse mata seca
Tu serias meu incêndio

Se eu fosse o Amazonas
Tu serias São Francisco
Se tu fosses São Francisco
Eu seria o mar salgado
Se tu fosses mar salgado
Eu seria o teu salmão

Se tu fosses sabiá
Eu seria manhã nova
Se eu fosse manhã nova
Tu serias meu café
Se eu fosse teu café
Tu serias água e pó

Se eu fosse pés descalços
Tu serias chão de terra
Se tu fosses chão de terra
Eu seria chuva grossa
Se eu fosse chuva grossa
Tu serias terra fértil

Se tu fosses lua cheia
Eu seria lobo jovem
Se eu fosse lobo jovem
Tu serias minha presa
E se fosse eu tua presa
Tu serias como aranha

Se eu fosse céu inteiro
Tu serias tempestade
Se tu fosses tempestade
Eu seria relampejo
Se tu fosses relampejo
Eu seria o teu trovão

Se tu fosses roseiral
Eu seria seiva bruta
Se eu fosse seiva bruta
Tu serias os meus sais
Se eu fosse os teus sais
Tu serias água limpa

Se eu fosse só criança
Tu serias meu recreio
Se tu fosses meu recreio
Eu seria os teus brinquedos
Se tu fosses meus brinquedos
Eu seria as tuas cores

Se tu fosses aquarela
Eu seria o teu pincel
Se eu fosse teu pincel
Tu serias tela branca
Se eu fosse tela branca
Tu serias obra prima

Se tu fosses o inverno
Eu seria noite escura
Se eu fosse noite escura
Tu serias meu cometa
E se tu fosses cometa
Eu seria tua cauda

Se eu fosse apenas homem
Tu serias meu desejo
Se tu fosses meu desejo
Eu seria o teu amor
E pra que tamanho amor
Se de amor não fosse teu?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Com quantos passos se faz uma distância?

Goiânia é pequena como um ovo, e meu destino mais irônico que Jô Soares e Millôr Fernandes. Assim reencontrei, esta semana, aquela que foi minha primeira namorada (achei indelicado escrever “encontrei minha primeira ex-namorada”), num congresso de pesquisa da Universidade – e eu nem sabia que estudávamos no mesmo lugar.

Estava ali, quatro fileiras à minha frente, assistindo a mesma palestra do Sandro di Lima, professor daquela escola de ensino médio onde ela e eu estudamos juntos e namoramos juntos e por fim nos desentendemos juntos, e que nem existe mais.

Cinco passos. Era essa a distância, tenho certeza. A distância física, claro, porque de fato nossa distância já é de cinco anos. Cinco anos do fim de um namoro de quatro meses entre dois adolescentes.

Nessa confusão de números, me lembrei de uma carta de três páginas, a última que fiz pra ela e que nunca foi entregue – a destinatária nem sabe que existe. Carta que ainda está guardada, já com sinais de amarelado, como testemunho de que já fui, um dia, um homem romântico. Ali estava tudo o que não disse nos quatro meses em que ficamos juntos, e dizia até o indizível. Eu pedia desculpas pelos erros, que não foram poucos, e garantia, pela primeira vez, que ia me esforçar para que tudo desse certo, pra que nosso relacionamento tivesse duração, que me dedicaria a ela, como sempre me cobrava com alguma razão. Falava coisas que só se diz quando está namorando.

Acontece – sempre meu bem humorado destino! – que no dia em que pretendia entregar a tal correspondência ela faltou ao nosso encontro e, por telefone, terminou o relacionamento. Como consequência, o que está ali escrito ficou sendo segredo meu e do papel.

Mas nesta semana estávamos a cinco passos. Nos vimos, sem dúvida. Ela parou de falar comigo há tempos, e aprendemos como bobos a fingir que não notamos a presença um do outro. E assim foi: nos encaramos várias vezes, sem trocar um “oi”.

Lembrei dos pequenos planos que tínhamos, e da fixação dela por animes. Lembrei da dificuldade em lhe dar presentes, porque é alérgica. Acabei me lembrando de uma boneca da “Docinho” que dei de presente num 12 de junho, e também que está quase chegando seu 23º aniversário. Que é do signo de escorpião. Que gosta de sorvetes de baunilha. Que ria das minhas idéias absurdas e dizia que eu era o cara mais estranho que ela já conheceu. Que a mãe dela não gostava de mim, embora não tenha me conhecido. Que fazia meus trabalhos de biologia, e também os outros quase todos. Que colava de mim nas provas. Que sempre recebia cantadas daquele professor de geografia que tem nome de um jogo de baralho, e ficava brava porque eu dava risadas. Que, ainda menina, dizia que me amava e eu, mais menino ainda, não era capaz de entender. Que gostávamos muito de andar de mãos dadas. Que escrevia, nos seus cadernos, nossos nomes envoltos em corações de caneta vermelha.

Pois estávamos a cinco passos de distância e não nos falamos. Estávamos a cinco anos de distância. Estávamos a muitas mágoas de distancia. Ou, talvez, a distância não tenha mesura.