segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Monólogo

(Todo o público deve estar sobre o palco. Luzes apagadas, há no centro um caixão de madeira aberto, com uma vela acesa de cada lado, à altura da cabeça. Algumas pessoas do público recebem velas acesas quando entram. No caixão, jaz uma mulher de vestido, com os olhos abertos. Odor ambiente de cravo.)

(Levanta-se subitamente)
Sempre quis ter os olhos abertos no meu velório. Já viu um defunto de olhos abertos? O coitado está lá, deitado, inerte, morto. Todo mundo passa e olha: “Foi um bom pai, um bom filho, um bom espírito.” – “A empresa homenageia pela inestimável contribuição durante anos de incontestável dedicação e fidelidade” – “Fulana de tal, brotou numa primavera faz tempo, e agora se vai com os ventos do outono” Mas e os olhos? Sempre quis os meus abertos. Não é por vaidade, meus amores, só queria olhar pra vocês uma vez mais. A maioria aqui é a segunda ou terceira vez que vejo. Você tem fogo? Ai! Me esqueci das boas vindas! Como vão, senhores? Sintam-se à vontade... Quer se deitar no meu lugar? É de veludo, coisa fina. Pode vir. Não? Não, nem você? Não mesmo?...
Morrer é horrível, sabiam? Nem queiram, eu morri uma vez só e nunca mais. “O meu cavalo está cansado, quer cova. E o cavaleiro insiste em descobrir, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto-e-vírgula ou ponto final” Monteiro Lobato, afinal de contas eu sempre fui uma mulher culta, não é verdade? Educada, não é verdade? Diz se é mentira. Não é mentira. O Lobato era um gênio. Gênio egoísta, não voltou pra contar, mas não seu preocupem, eu conto tudo pra vocês.
Eu estava lá, 14:31h. numa maca branca de um quarto branco com um monte de homens brancos em jalecos brancos e luvas brancas. Sentia uma náusea tremenda. Sem contar que eu me sentia flácida, inchada... O soro caía em conta-gotas, 14:32h, um alerta de morte encefálica, e eu observava tudo, 14:33h. Nessa hora eu me lembrei do meu testamento: “Todos os bens ficam distribuídos segundo a Lei de Herança. Os órgãos devem ser doados, exceto as córneas”. Eu queria morrer de olhos abertos. 14:36, todo o diagnóstico, burocracias, eu estava morta com aquilo... 14:38 desligam os aparelhos. Uma coisa muito, muito curiosa que eu vou contar pra vocês. Conhecimento póstumo, meus queridos: Todos que vão daqui pro outro lado, quando chegam perguntam as horas. Juro, todos! Mas imagine que loucura, você está morrendo, 14:31h, os médicos se assustam, você sabe que vai embora, 14:33h, eles desligam a maquina. 14:38h, você chega do outro lado, 14 e ? Que diferença faz? Mas do lado de cá o tempo continua, 14:40h, um enfermeiro lamenta, 14:41h, 14:42h, 14:43h...
E nesse tempo todo, os meus olhos estatelados, de lá até aqui, pra ver suas faces de condolências, enquanto eu fico deitada - a dona da festa! Falando em festa, gostei de você, garoto... não lembro de onde nos conhecemos... Você tinha que aparecer justo hoje, com tanta gente? Podia ter vindo antes. E você, podia ter se vestido melhor, feito a barba, baby... hummm, ou pensou que não fosse encontrar nada interessante aqui? Sabe, no fim das contas morrer é excitante. Acho que quando morre a gente fica despudorada. Vergonha do quê, do corpo? Ninguém mais quer. Uma mulher morta perde metade do encanto.
Ahhh! Agora eu me lembro, ele me deu banho! Claro... Ele quem me trouxe pra casa, lá do IML. Tinha me prometido, eu o fiz prometer: “Promete que vai me dar meu último banho?... Promete... Please. Ah, promete. Você vai me dar meu último banho e está decidido.” Onde está ele? Onde está? Ele tinha palavra, me colocou na banheira, me lavou devagar. Acho que ele lembrava das nossas noites... Me lavou como se fizesse carícias... Fitou meus seios, várias vezes... minhas pernas... Depois olhou meus olhos, me colocou este vestido, eu mesma escolhi pra este dia. Queria um vestido justo, quase – digamos – sensual. Aí ele me deitou nessa caixa, olhou-me com olhos de despedida e partiu. Mas deixou meus olhos abertos, como tinha prometido. Meus olhos abertos pra ver o desejo dos homens e a repulsa das mulheres. Por que me olham assim? Se a mulher é só um corpo por que não sentir tesão por uma defunta? Fala verdade, você não sente? Se é tudo o que fui em vida não me custa ser na morte. Mas onde ele está? Por que não veio? Disse que vinha...
Mas vocês já querem ir embora, não estão mortos, né? Que coisa boba, quase me esqueci. “Porque o tempo é invenção da morte”, “Porque o tempo é invenção da morte”, “Porque o tempo é invenção da morte”. Eu preciso mesmo me deitar, ali. Quer vir comigo? Deita comigo, amor. Não me olha assim, não é ruim como parece. Eu não sou tão fria quanto uma prostituta. Todos vocês já dormiram com uma prostituta... ou várias. Frias. Vocês já vão? Eu vou deitar, mas vocês podem ficar, se quiserem. Vou apagar algumas velas, pra deixar o ambiente mais confortável. Vou parar de conversar, podem dizer o que quiserem de mim... Só não fechem meus olhos. Quando eu for vocês aplaudem. Você: vai me aplaudir? Por favor, não quero ir embora assim, em silêncio. É meu último enterro. Eu vou, vocês podem ir embora, se não quiserem ficar. Mandem lembranças minhas. Você me leva flores, no enterro? Pode me visitar quando quiser, meu túmulo é enorme. Eu já vou, mas vocês aplaudem, eu mereço. Sempre quis ser velada de olhos abertos.